sexta-feira, setembro 08, 2006

Idéias são matéria-prima na nova sociedade

"Sob o estímulo dos meios de comunicação de massa, podemos alienar-nos ao infinito: 12 horas como produtores indefesos e 12 horas como consumidores insaciáveis."
"Os povos latinos, ao invés de se americanizar, deveriam ajudar os norte-americanos a viver de modo mais equilibrado. Nunca como hoje, o mundo é dominado por um povo de desequilibrados, incapaz de viver de modo sadio e sensato."

Sociólogo italiano Domenico de Masi subverte noção de ócio e negócio

Por Marlova Aseff (publicado no jornal A Notícia em 2002)


Domenico de Masi é um simpático senhor de 62 anos. Seu último livro figura na lista dos mais vendidos no Brasil há cinco meses consecutivos, alcançando a respeitável marca de 35 mil exemplares. O motivo? Talvez suas idéias reflitam o que muitos estavam querendo ouvir há um bom tempo: o trabalho não precisa ser necessariamente uma obrigação tediosa e sacrificante, muito menos o único objetivo da vida de uma pessoa."A maioria se enche de trabalho 10 horas por dia, descuidando da família, do convívio social, do amor e da cultura, de acordo com o modelo de vida americano baseado na prioridade do dinheiro e do poder", critica o sociólogo italiano. Professor titular de sociologia da Universidade La Sapienza de Roma, De Masi estará em Florianópolis no dia 26 como convidado do Encontro das Redes Incubadoras da Região Sul. As entradas já estão esgotadas. Em solo catarinense, falará sobre sua visão de futuro "essencialmente otimista" e sobre o ócio criativo, conceito que criou depois de anos de estudos sobre criatividade. Leia a seguir os principais trechos da entrevista concedida com exclusividade para A Notícia.


A Notícia - Seu livro "Ócio Criativo" já está há 19 semanas na relação de livros mais vendidos do Brasil? O que está levando as pessoas a se sentirem atraídas por suas idéias e pelo livro?Domenico de Masi - Não sei e gostaria de sabê-lo. Posso tentar algumas hipóteses. Talvez minhas idéias correspondam a uma necessidade, sempre mais presente mas ainda não explorada: aquela de substituir a centralidade do trabalho pelo trabalho pela centralidade do trabalho pelo ócio. Aristóteles e toda a cultura grega sustentavam que a guerra existe em função da paz e a atividade, em decorrência do ócio. A sociedade industrial, ao invés, opôs o descanso ao trabalho: só é necessário repousar na medida em que isso sirva para recuperar as forças e para retomar o trabalho. A maioria dos executivos, dos trabalhadores na linha de produção, dos trabalhadores intelectuais se enche de trabalho 10 horas por dia, descuidando da família, do convívio social, do amor, da cultura, de acordo com o modelo de vida americano baseado na prioridade do dinheiro e do poder. Proponho um modelo de vida baseado na introspecção, na amizade, no amor, no lúdico e no convívio. Uma segunda hipótese é de que a forma dialogada do livro-entrevista dê comodidade ao leitor e o ajude a acompanhar o raciocínio sem se enfadar muito. Uma terceira hipótese é de que haja grande afinidade entre minhas idéias, meu tipo de sensibilidade e a cultura brasileira.
AN - Como você chegou ao conceito de ócio criativo e qual é seu real significado?
De Masi ­ Cheguei à formulação do conceito de ócio criativo, estudando a criatividade. Nos últimos 15 anos, fiz pesquisas sobre centenas de grupos criativos do passado e do presente e me dei conta de que a criatividade científico-tecnológica vinga também num ambiente tumultuado, dominado pela pressa e pelo eficientismo. A criatividade humanística, ao contrário, floresce sobretudo num clima que valoriza a calma, a experiência, o equilíbrio, a sobriedade. Na sociedade industrial (entre 1750 e 1950), prevalecia a atividade braçal e repetitiva, para a qual o ócio constituía uma pausa entre uma e outra fase de trabalho. Em nossa sociedade pós-industrial, predomina o trabalho intelectual. As atividades intelectuais são de diferentes gêneros e podem ser híbridas: o trabalho para produzir riqueza, o estudo para produzir conhecimento, o jogo para produzir alegria. Quando conseguimos desenvolver uma atividade que une trabalho, estudo e jogo, realizamos o que chamo de ócio criativo. Enquanto a família, a escola, a empresa, os meios de comunicação continuam a ensinar como se trabalha em escala industrial, nada nos ensinam sobre como praticar o ócio de modo criativo. Espero que nossa educação dê muito mais atenção ao ócio, de outro modo ele não se eleva ao nível criativo, tornando-se dissipativo.
AN - Uma grande parte da população mundial tem o mesmo problema: sente-se estressada por trabalhar durante muitas horas seguidas e pela necessidade de consumir. Segundo sua avaliação, quais são os limites para o consumo?
De Masi - Não há limites objetivos para o consumo. Sob o estímulo dos meios de comunicação de massa, podemos alienar-nos ao infinito: 12 horas como produtores indefesos e 12 horas como consumidores insaciáveis. O único limite pode vir da sabedoria, isto é, da força subjetiva de substituir a competição destrutiva pela emulação solidária e a aquisição de novas coisas desprovidas de sentido pela a atribuição de sentido às coisas que já temos.
AN - Você classifica freqüentemente que o trabalho é uma maldição, uma praga bíblica. Por que? É possível a sociedade existir sem que haja o trabalho?
De Masi - O homem sempre é ativo física e intelectualmente, do nascimento à morte, quando está acordado e quando dorme. Algumas atividades servem para produzir riqueza, outras servem para produzir conhecimento, outras servem para produzir beleza, outras para produzir violência, outras para produzir alegria. Por conveniência social, algumas dessas atividades são remuneradas e as chamam de trabalho; outras não são pagas e não as chamam de trabalho. Não pode existir uma sociedade sem trabalho, mas não há tampouco uma sociedade sem ócio. De resto, nas perspectivas de vida de um jovem de 20 anos, há 530 mil horas de existência e só 80 mil de trabalho.
AN - Sua concepção é que as pessoas precisam dedicar mais tempo para a família e/ou para o desenvolvimento de habilidades pessoais. Como isso é possível, considerando que a competição no trabalho cada vez mais é crescente?
De Masi - Como a expectativa média de vida aumentou muito, hoje o indivíduo já dedica ao trabalho apenas um décimo do total da própria vida e só um sétimo de sua fase adulta. Há cem anos, o trabalho representava a metade de todo o tempo de vida. A competição no trabalho aumenta, porque se difunde o modelo americano baseado na alienação e no delírio de onipotência. Tal modelo explora ao máximo as pessoas entre os 30 e 50 anos e depois as dispensa como máquinas obsoletas. Os trabalhadores acostumados até o dia da aposentadoria a classificar a inatividade como crime, são de repente forçados a habituar-se a considerá-la virtude. Esse é um modelo de vida que não aceito. Os povos latinos, ao invés de se americanizar, deveriam ajudar os norte-americanos a viver de modo mais equilibrado. Nunca como hoje, o mundo é dominado por um povo de desequilibrados, incapaz de viver de modo sadio e sensato. Basta ver a vida amorosa de Kennedy e de Clinton, para entender a que nível de neurose pode levar o modelo americano baseado na competição destrutiva e no utilitarismo.
"O progresso tecnológico e a globalização fazem com que seja necessário cada vez menos trabalho para produzir cada vez mais bens e serviços. Logo, a necessidade de trabalhadores diminuirá sempre mais."

AN - O que deve fazer uma empresa que pretende estimular a criatividade entre seus funcionários?
De Masi - Em meu entendimento, é necessário incrementar ao máximo o progresso tecnológico, de modo que se possa deixar para as máquinas todo o trabalho perigoso, nocivo, maçante e banal; preparar os trabalhadores para uma vida mais longa; abolir a idade para aposentadoria: todo o trabalhador deve ter o direito de trabalhar até quando quiser e até quando encontrar empregador; educar com igual atenção para o trabalho, para o estudo, para o jogo; desmistificar o trabalho, fazê-lo descer do trono em que o colocou a sociedade industrial e reduzi-lo a uma das tantas atividades de nossa vida; redistribuir o trabalho, a riqueza, o poder e o conhecimento; ter em toda a empresa e em todo o nível hierárquico número igual de trabalhadores e trabalhadoras; conferir papel central à ética e à estética; basear a dinâmica organizativa na emulação solidária, não na competição destrutiva; substituir o controle pela motivação e desestruturar o trabalho convencional com o trabalho a distância (teletrabalho).
AN - Suas idéias chegam a ser motivo de polêmica, críticas. Quem são os principais críticos e por quê?
De Masi - Alguns críticos "patronais" me perguntam: mas quem produzirá riqueza se todos ficam no ócio? Essa é a crítica mais estúpida e que menos aceito. Hoje, conseguimos produzir muito mais bens e mais serviços em muito menos tempo. Logo, o tempo poupado não deve ser convertido em novo trabalho. Ademais, o ócio, se consentimos em desenvolver novas idéias, é ele mesmo produtor de riqueza, porque as idéias são as verdadeiras matérias-primas da produção pós-industrial.
AN - O destino dos países em desenvolvimento é o de se especializar no trabalho convencional, enquanto os desenvolvidos realizam o intelectual? Qual é o papel dos países do Terceiro Mundo na sociedade pós-industrial?
De Masi - Hoje, o planeta está cada vez mais se dividindo em três tipos de países. O primeiro grupo abrange os países produtores de idéias através de suas universidades, de seus cientistas, de suas emissoras de televisão. O segundo grupo - ao qual pertence o Brasil - compreende os países produtores de bens e serviços, que utilizam sobretudo licenciamentos dos países pertencentes à primeira categoria. O terceiro mundo envolve os países que não produzem nem idéias nem bens, mas só fornecem mão-de-obra e matérias-primas. Esses países são condenados a consumir as idéias produzidas no primeiro mundo e os bens do segundo. Para pagar, são obrigados a ceder suas matérias-primas, suas bases militares e a submeter-se politicamente.
AN ­ Como pode ser mudada a concepção predominante de que o trabalho é uma obrigação?
De Masi - Na atual sociedade, o trabalho é uma obrigação, porque dele dependem o salário e a respeitabilidade social. Mas, por sorte, o papel do trabalho está se redimensionando cada vez mais: com o aumento do tempo livre, conta não só o trabalho que se faz, mas também a simpatia, a alegria, a disponibilidade, o erotismo, a solidariedade, o talento.
AN - Como você vê o problema do desemprego?
De Masi - O progresso tecnológico e a globalização fazem com que seja necessário cada vez menos trabalho para produzir cada vez mais bens e serviços. Logo, a necessidade de trabalhadores diminuirá sempre mais. Porém, crescerá, sobretudo no terceiro mundo e entre as mulheres, o número daqueles que avançarão a legítima pretensão de conseguir um trabalho remunerado. É preciso criar novos trabalhos, contanto que sejam verdadeiramente úteis. Mas, sobretudo, é necessário redistribuir o trabalho existente, de modo que todos possam participar. É absurdo que, na mesma família, o pai traballhe 12 horas por dia e o filho esteja completamente desocupado!
AN - Para encerrar: Quem tem mais chances de vencer a guerra entre os burocratas e os criativos?
De Masi - Os burocratas são mais numerosos, mais agressivos e corporativistas. Apesar disso, vencerão os criativos, porque, antes ou depois, todo o trabalho burocrático poderá ser delegado às máquinas, enquanto a atividade criativa deverá ser desenvolvida sempre e somente pelos homens dotados de criatividade.

"Todo o trabalho burocrático poderá ser delegado às máquinas, enquanto a atividade criativa deverá ser desenvolvida sempre e somente pelos homens dotados de criatividade."