segunda-feira, novembro 23, 2020

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quarta-feira, setembro 28, 2016

Um livro inquietante para se ler em 2016

Acabo de ler o romance K: Relato de uma busca, de Bernardo Kucinski. O livro havia sido lançado primeiramente em 2011 pela editora Expressão Popular, relançado em 2014 pela Cosac Naify e, este ano, saiu pela Companhia das Letras.  Não é longo, apenas 169 páginas. Li em dois dias. Achei muito oportuno lê-lo agora em 2016, pois em 2011 a história configurava uma denúncia sobre a ditadura militar no Brasil. Estava no passado. Nos dias de hoje,  ecoa como  uma ameaça de futuro próximo, ou mesmo de presente, que se configura quase como um pesadelo para aqueles que ainda prezam a nossa frágil democracia, nossos direitos e liberdades. 

Em tempo: o livro é baseado na história do desaparecimento da irmã do autor no início da década de 1970. Começa com um aviso: “Caro leitor: tudo neste livro é invenção, mas quase tudo aconteceu”. Agora irei fazer algumas rápidas anotações sobre a trama e como ela reverberou em mim.

Primeira nota: o pai que sai em busca da filha desaparecida nos porões da ditadura chama-se K., tal qual em O processo, de Kafka, e também é enredado por agentes de um Estado perverso e autoritário, mas sobretudo cínico. Um Estado que se permite usar de subterfúgios para não seguir a lei.  Qualquer semelhança não é mera coincidência.

Segunda nota: a trama mostra as estratégias de guerra psicológica usada pela repressão para confundir, desestabilizar, “matar no cansaço” aqueles que procuravam seus desaparecidos. O livro denuncia nas páginas finais que quarenta anos mais tarde esse “sistema repressivo” ainda continuava (continua) articulado. Medo. Também faz-nos pensar como certas organizações podem ser seletivas quanto aos Direitos Humanos: por exemplo, se a sua filha desaparecer por causa do sionismo, nós te ajudamos, caso contrário, nada feito. Mostra também que o informante, o dedo-duro, não veste gabardine e chapéu de feltro: pode ser o simpático dono da padaria que escuta as conversas no balcão, o moço que faz a vitrine de lojas em diferentes bairros da cidade. Enfim, pode ser qualquer um.

Terceira e última nota:  um dos trechos que mais me fizeram pensar sobre os dias que vivemos hoje no Brasil está no capítulo no qual os colegas de universidade de Ana, a filha desaparecida e que era professora do curso de Química da USP, votaram por sua demissão por abandono de função. Ninguém, absolutamente ninguém, tem coragem de dizer em voz alta que ela não abandonou a função, mas que foi sequestrada por órgãos do Estado. Altos cientistas do país presentes à reunião, alguns dos quais judeus perseguidos pelos nazistas na II Guerra, não se manifestaram. O narrador conta que anos depois a reitoria assumiria a injustiça dessa demissão, mas os professores presentes à reunião nunca se desculparam. Entre trechos da Ata, o narrador imagina o que passou pela cabeça de cada um naquele momento. Cada um com as suas desculpas íntimas para não se posicionar diante da injustiça. Entre as desculpas, preservar a instituição, não colocar tudo a perder por causa de uma simples professora, ganhar um cargo por ser cúmplice da repressão, simpatizar ou não com a desaparecida, pra quê arriscar a carreira em nome de alguém que nem conheço bem, metida sei lá com quê?


E cada um concede-se a sua desculpa íntima para permanecer calado.

Serviço:
K: relato de uma busca, de Bernardo Kucinski. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. 169 páginas.

terça-feira, junho 24, 2014

Felisberto Hernández: a vida de um concertista de província

 * Por Marlova Aseff

As freqüentes viagens do escritor uruguaio Felisberto Hernández (1902-1964) pelas cidadezinhas do interior do Uruguai e da Argentina formaram a matéria da experiência que esse pianista-escritor levaria para a maioria das suas narrativas. Impossível não lembrar Walter Benjamin, para quem havia dois tipos arquetípicos de narradores: o sedentário, representado pelo camponês, e o marinheiro-comerciante. Pois Felisberto Hernández é dessa segunda estirpe: um navegador que percorria o pampa uruguaio e argentino – cuja planície foi muitas vezes comparada à vastidão do mar – e aportava em lugarejos onde recolheu o substrato de sua original literatura.
Mais conhecido em seu tempo como pianista do que como escritor, o uruguaio era ao mesmo tempo galante (teve várias mulheres) e glutão (de tão gordo, quando morreu, seu caixão teve de ser retirado pela janela do prédio). Esteve fora do cânone literário de seu país durante quase toda sua vida. Conforme estudo realizado por Alejandro Gortázar na Universidad de La República (Uruguai)[1], sua literatura apareceu pela primeira vez em uma antologia do conto daquele país somente em 1962, dois anos antes de sua morte. Talvez a explicação para esse fato resida em dois fatores que não se excluem: por um lado, a originalidade de seu estilo retardou o reconhecimento de sua obra por parte da crítica. Por outro, seus estranhos relatos necessitam de um público leitor que esteja disposto a renunciar ao linear.
Na década de 70, escritores como Italo Calvino e Julio Cortázar escreveram prólogos elogiosos para traduções para o italiano (1974) e o francês (1975). Em 1977, um grupo de estudiosos do Centro de Investigaciones Latinoamericanas da Universidade de Poitiers publicou uma série de estudos dedicados à obra de Felisberto Hernández[2]. No entanto, as primeiras críticas foram divulgadas pela equipe do lendário semanário uruguaio Marcha. Nessa publicação, críticos como Ángel Rama, Emir Rodríguez Monegal, Mario Benedetti e José Pedro Díaz, entre outros, fizeram suas apreciações (nem todas positivas) sobre a produção literária de Felisberto.
Para Calvino, Hernández “não se parece com nenhum outro escritor”. Para Cortázar, a obra do uruguaio “não responde a influências perceptíveis”. Sua produção já foi considerada literatura imaginativa, fantástica, surrealista. Essa última denominação foi criticada por Cortázar, que acusava a crítica de, por não saber como enquadrar a obra, “tirar da cartola o grande coelho branco chamado surrealismo”.
Pablo Rocca, professor da Universidad de La República (Uruguai), chama a atenção para o rico contexto de tensões no qual se formou a literatura de Hernández, como: campo e cidade, vanguarda e criollismo, realismo e formas do fantástico, modernização e conservadorismo. A temática insólita dos contos, segundo Cortázar, alia o cotidiano ao excepcional a ponto de mostrar que podem ser a mesma coisa.  Além disso, em seus textos aparecem o registro coloquial (uma raridade na época) e um humor sutil e melancólico.
A obra de Felisberto Hernández divide-se naturalmente em três períodos com características diferentes. De 1925 a 1931, época em que inicia sua criação literária e lança pequenos livros sem expressão: Fulano de tal (1925), Libro sin tapas (1929), La cara de Ana (1930) e La envenenada (1931). A  partir de 1942, começa a segunda fase, quando publica relatos mais extensos nos quais privilegia a memória e a evocação. Pertencem a esse período Por los tiempos de Clemente Colling, El caballo perdido e Tierras de la memoria (publicado postumamente). O terceiro e último período é representado pelo conjunto de seus contos: Nadie encendía las lámparas (1947), Las hortensias (1949) e La Casa Inundada (1960).

Traduções brasileiras:
O cavalo perdido e outras histórias. São Paulo: Cosac Naify, 2006. Tradução de Davi Arrigucci Jr.
As hortensias/Las hortensias. São Paulo: Grua, 2012 (edição bilíngue).  Tradução de Pablo Cardellino Soto e Walter Carlos Costa.







[1] Ver artigo do autor na revista Fragmentos, nº 19, pp 31-45.
[2] Trata-se da obra Felisberto Hernández ante la crítica actual.

sexta-feira, abril 11, 2014



Otília tinha toda uma teoria sobre o que o bordado poderia ensinar às pessoas. Ou melhor dizendo, às mulheres, uma vez que os homens não costumavam bordar.  Por exemplo, ela  dizia que a  beleza de uma coisa era diretamente proporcional à falta de pressa com que havia sido feita. Isso valia igualmente para uma receita de bolo, uma refeição, para a amizade ou para o  amor. Também falava que era melhor consertar um erro logo que ele acontece, pois depois se tornava muito mais difícil voltar atrás, e raramente isso era feito sem deixar marcas no “bordado”. Havia também a questão da escolha das cores (o contraste certo poderia ressaltar todo o potencial de beleza de um determinado tom) e da tensão com que devíamos fazer os pontos (nem frouxo demais, nem apertado demais).
E os arremates? Os arremates, ela pensava, eram a prova de que era preciso também cuidar das coisas que não são visíveis, pois elas, embora não sejam evidentes, podem ser sentidas, estão presentes de alguma forma e atestam a integridade da “coisa” em questão. E chamava a atenção para nunca descuidarmos dos fiapos soltos: parecem inofensivos, mas podem acabar com a sua paz.