“Quem pretende se aproximar do próprio passado soterrado deve agir como um homem que escava. Antes de tudo, não deve temer voltar sempre ao mesmo fato, espalhá-lo como se espalha a terra, revolvê-lo como se revolve o solo.” - Walter Benjamin
sábado, fevereiro 08, 2014
Frente fria
domingo, outubro 13, 2013
A plenitude do instante
Pinceladas rápidas. Pinceladas rápidas e múltiplas, nervosas e rítmicas, ondulantes, fragmentadas, descontraídas. Pinceladas rápidas e múltiplas, nervosas e rítmicas, ondulantes, fragmentadas, descontínuas.
O quadro O Grito de Munch berrava tons entre vermelho roxo laranja e não se ouvia o grito mas sim as cores suplicantes e foi aí que folheando um livro de física me revoltou o fato de as cores serem uma ilusão e isto é uma advertência de que tudo o mais pode ser ilusório quer dizer não existem de fato as cores e uma mesa vermelha não é uma mesa vermelha é a ilusão do vermelho presente e na verdade a cor é a capacidade dos objetos sugarem a luz como esponjas que umedecem o azul dos quadros de Picasso.
– Quer dizer que nós nunca vimos mesmo o azul? – ela pergunta, olhando nos olhos dele, que eram profundamente azuis.
* Miniconto de Marlova Aseff
sábado, julho 20, 2013
Miniconto doméstico
A lâmina da faca penetra docemente a polpa do tomate. Parece carne... "Minhas sopas estão cada vez melhores", penso, satisfeita. E não apenas cozinho, mas também costuro. Minhas especialidades são as galinhas e os elefantes. Sim, galinhas e elefantes, de feltro, bichinhos coloridos. Não existem mais mulheres como eu, que se dignam a chorar cortando uma cebola! Estraçalho os vegetais com a faca afiada, rápida e fatal como uma metralhadora. Também gosto do liquidificador e do aspirador de pó, ou de qualquer outro eletrodoméstico barulhento que possa tirar a sua paz. É como gritar, mas sem precisar abrir a boca.
Reciclando textos (1)

“O homem que não é capaz de
enfrentar o seu passado, não tem passado;
ou melhor, nunca sai dele,
vive eternamente dentro dele.”
Schelling
quinta-feira, julho 05, 2012
Não conheci pessoalmente Jules Supervielle, nunca recebi dele uma linha. Entretanto, sinto sua morte como a de um amigo chegado. A explicação é simples, amo sua poesia há mais de trinta anos, e relações desta natureza criam uma espécie de intimidade, que não depende de conhecimento individual. [....] Sua poesia tinha algo de muito especial mas indefinível à primeira vista ou à luz das idéias estéticas em voga. Era canção, melodiosa mas discreta, de um homem que aprofundava sua condição de homem, e tentava mergulhar na essência da natureza, surdamente, suavemente, como quem vai de leve e devagar por uma estrada cada vez mais estreita, mais escura – estrada que tanto pode conduzir a uma floresta, como a um reino submarino, a uma paisagem pré-histórica, ou, quem sabe, a um universo gasoso (Drummond apud Gledson 2003:93).
segunda-feira, abril 02, 2012
Abril é o mais cruel
Lilases da terra morta, mistura
Memórias e desejo, aviva
Agônicas raízes com a chuva da primavera
Eliot:versos inciais de A terra desolada, em tradução de Ivan Junqueira
sexta-feira, março 23, 2012
quarta-feira, julho 13, 2011
quinta-feira, março 03, 2011
Imagens da fronteira
quinta-feira, maio 06, 2010
Lembrando Mindlin

Percebi, dia desses, que o nosso querido José Mindlin, maior bibliófilo brasileiro, faleceu em fevereiro, e eu nem me toquei de lhe fazer uma homenagem. Conheci Mindlin em 2004, quando ele esteve aqui em Floripa para lançar uma caixa que continha um livro dele e outro da sua bibliotecária Cristina Antunes.
Muito simpático, vivaz, e sem afetação nenhuma por ser o grande colecionador de livros raros do Brasil e também um rico industrial, Mindlin foi muito, muito amável. Tiramos essa a foto aí do lado...Eu havia escrito sobre o lançamento no Cultura, do Diário Catarinense, e ele leu o texto no avião e escreveu assim no autógrafo que peguei naquela noite: "Para Marlova, que me deixou orgulhoso com o seu artigo, um abraço do José Mindlin. 24/08/2004. Imaginem, orgulhosa estou eu de ter conhecido essa pessoa que tanto fez pelo livro e pela nossa cultura.
O texto "Memórias de uma incrível biblioteca", que publiquei no DC Cultura, está aqui no blog. É só clicar no marcador "Livros", à direita, e rolar a página.
segunda-feira, novembro 02, 2009
Resenha: Borges y la traducción. La irreverencia de la periferia
En el primer capítulo, “Argentina y la traducción: líneas de un contexto cultural”, se discute el entorno en lo cuál Borges desarrolla sus teorías acerca de la traducción. Entre otras cosas, examina la naturaleza políglota de la literatura argentina en las décadas de 1920 e 1930, época en que Borges empieza a producir sus teorías acerca de la traducción. Waisman subraya que ese es un tiempo en lo cual la literatura argentina combina tendencias internacionales (de cuño cosmopolita) y locales (de vertiente criolla). “Desde el comienzo, pues, la traducción se vincula con la independencia cultural y la fundación de una literatura nacional; por consiguiente, con temas de identidad y representación”, concluye (p.23). Para Waisman, el papel de la traducción varía de una cultura a otra, así que la traducción, como cualquier otro modo de escritura, no es lo mismo en los márgenes que en el centro. Por eso, propone un examen de la literatura argentina por la lente de la teoría de la traducción para comprender qué significa traducir para un escritor argentino.
En el segundo capítulo, “La traducción según Borges: el desarrollo de una teoría”, el autor parte de la premisa de que aún “no se ha estudiado suficientemente la importancia que la traducción tuvo para Borges en sus implicaciones críticas y teóricas más amplias”. Para Waisman, en parte, eso es consecuencia de lo difícil que resulta interpretar y analizar las ideas de Borges y a la vez incorporarlas a la teoría. Pues Borges desplaza el acento de la tradicional búsqueda de la fidelidad en traducción y sugiere que no hay textos definitivos. De este modo, “lanza un reto irreverente al sugerir una teoría de la traducción mala, una estética del robo y la infidelidad”, dice Waisman (p.48). Al analizar el carácter de las evaluaciones que Borges hace de las traducciones de Las 1001 noches, el autor concluye que, para Borges, la deformación es inevitable y no siempre es mala.
En “La escritura como traducción” Waisman profundiza la idea de que escribir y traducir son actos sinónimos de creación. Además, con Borges, las teorías acerca de la traducción adentran al mundo de la ficción. Waisman estudia el proceso creativo de "Historia universal de la infamia", relato en lo cuál Borges se complace de practicar una "mala traducción", y analiza otros textos hasta llegar a "Pierre Menard, autor del Quijote", "el texto más importante de Borges sobre el tópico traducción", según Waisman.
“La estética de la irreverencia: mal traducir desde las márgenes” trata de cómo las teorías de Borges aumentaron el poder de la traducción periférica para crear textos nuevos. En el capítulo cinco, “Borges lee a Joyce: un encuentro en los límites de la traducción”, Waisman hace el rescate del diálogo que Borges mantuvo con la obra de Joyce en reseñas, traducciones y artículos de 1925 hasta 1982. Analiza en detalles cómo Borges pone en práctica sus teorías en la traducción de una página del Ulises que hizo para la revista Proa en 1925 y además de eso, rastrea otros puntos de encuentro entre los dos escritores.
En suma, Borges y la traducción es un libro que trae interesantes aportes para quienes se interesan por traducción en general, por la obra de Borges o por ambos temas. Y, principalmente, investiga y aclara la astuta manera como Borges ha utilizado la traducción para reposicionarse frente a las tradiciones centrales en cuanto escritor de las orillas.
Waisman, Sergio. Borges y la traducción. La irreverencia de la periferia. Traducción de Marcelo Cohen. Buenos Aires: Adriana Hidalgo, 2005, 318 pp.
segunda-feira, outubro 26, 2009
quinta-feira, setembro 24, 2009
Colagem

Quando era adolescente, gostava de fazer colagens. Ontem, fiz esta que está aí em papel e escaneei....
segunda-feira, junho 01, 2009
Leitura para "desbloquear"


O título em inglês é Writing down the bones... Pareceu-me que o título perdeu bastante a força ao ser traduzido como Escrevendo com a alma. Escrevendo com as vísceras, ou algo assim, seria mais fiel ao espírito do trabalho, até porque a autora propõe que a escrita seja encarada como algo "físico", não somente espiritual. Ela afirma:
"O que as pessoas não percebem é que escrever é um ato físico. Não envolve apenas o pensamento. Trabalha a visão, olfato, paladar, sensações - tudo o que está vivo e ativo". Ela propõe, como método, manter as mãos em movimento, escrevendo até que se perca o controle.
Outro argumento de Natalie é que a escrita requer muito exercício; por isso, compara o ato de escrever com o de correr: "quanto mais treinamos, melhor nosso desempenho", diz . Retomando: já havia lido o livro, mas aí achei a tradução para o português, feita por Camila Lopes Campolino, em 2008, para a Martins Fontes, e resolvi reler por considerar que esse livro é muito bom no quesito "desbloquear o escritor que existe em você".
Gosto especialmente desta idéia do guru budista de Natalie, um tal Katagiri Roshi:
"A capacidade é como um manancial sob a superfície do solo".
Ou seja, é preciso prática e esforço para ter acesso a esse "rio subterrâneo" por onde fluem nossas experiências e emoções.
No capítulo intitulado "Compostagem", Natalie diz:
"A consciência leva um certo tempo para filtrar as experiências. (...) Imagine que o corpo é um depósito de lixo: acumulamos experiência e, a partir da decomposição das cascas de ovo, folhas de espinafre, pó de café e sobras de carne, descartados pela mente, surgem nitrogênio, calor e adubo. É desse solo fértil que brotam nossos poemas e histórias. (...) Mas isso leva tempo."
É a aceitação de que escrever sobre coisas significativas requer tempo e um longo mergulho do escritor em sua subjetividade. Digerir as experiências, ruminar, como dizia Nietzsche...
O outro livro que está na minha cabeceira é Para ler como um escritor, de Francine Prose (Zahar,2008, tradução de Maria Luiza Borges). Com um sobrenome desses (Prosa!), pode-se dizer que ela é uma predestinada. :) Mas vou faler sobre ele em outro post, quando eu avançar um pouco mais na leitura.
sábado, maio 30, 2009
É exercitando que se aprende!

.jpg)
Ambos eram de auto-ajuda, mas nem por isso menos interessantes. Aprendi muito sobre a prática da tradução nesses trabalhos e percebi que tão difícil quanto verter de um idioma a outro, é escrever bem na nossa própria língua. Fico sempre muito decepcionada quando deixo passar batido algum erro! É impressionante como sempre algo escapa. Por esse motivo, tenho sempre na minha mesa gramáticas, dicionários de regência verbal e nominal e de sinônimos.
E, para melhorar ainda mais meu velho português, estou fazendo um curso de extensão de Revisão de Textos. Essa experiência está sendo fundamental para aprimorar meu estilo de escrita e para aguçar a percepção sobre os meus vacilos na hora de escrever.
Quem quiser saber mais sobre os livros dos quais falei é só clicar nos seguintes links:
Os homens (às vezes, infelizmente) sempre voltam
e
Tradutor: um mediador de perdas?

Na foto, o filósofo Paul Ricoeur
Resenha de Sobre la traducción, de Paul Ricoeur. Tradução e prólogo de Patricia Wilson. Buenos Aires: Paidós, 2005, 75 pp.
O primeiro texto, “Desafío y felicidad de la traducción”, é um discurso pronunciado no Instituto Histórico Alemão em 1997. Nele, Ricoeur parte do título do ensaio A prova do estrangeiro, de Berman, mais precisamente do fato de a tradução ser uma épreuve, termo que em francês tem o sentido de “pena experimentada” e de “prova”. Para Ricoeur, a tradução traz consigo uma certa aceitação de perda. E a tarefa do tradutor é estar nessa incômoda situação de mediador, que o coloca à prova. Por causa dessa “perda”, o trabalho da tradução, segundo ele, assemelha-se ao “trabalho do luto”, e ao “trabalho de recordar” (no sentido usado por Freud em seus ensaios psicanalíticos), e também ao “trabalho de parto”.
A tradução, por um lado, atenta contra a sacralização da chamada língua materna, e há um movimento de rechaço à experiência do estrangeiro por parte da língua de chegada. Entre o estrangeiro (representado pela obra, o autor e sua linguagem) e o leitor, interpõem-se o tradutor. Segundo Ricoeur, o rechaço da mediação com o estrangeiro e a pretensão de auto-suficiência nutriu numerosos etnocentrismos lingüísticos e pretensões de hegemonia cultural. Isso ocorreu com o latim, da Antigüidade tardia até o fim da Idade Média, com os franceses na época clássica, e com os anglo-americanos hoje em dia.
Resistência, conceito que Ricoeur toma emprestado da psicanálise, é o que o trabalho de tradução e o tradutor econtrariam em vários níveis. Por isso, para alcançar a “felicidade da tradução” seria necessário abdicar ao ideal de tradução perfeita. Ele conclui a conferência afirmando que essa felicidade deve estar na “hospitalidade lingüística”, na qual “o prazer de habitar a língua do outro é compensado pelo prazer de receber na própria casa a palavra do estrangeiro”. Há, aí, outra vez uma menção a uma obra de Berman, cujo título é La traduction et la lettre ou l´auberge du lointain [A tradução e a letra ou o albergue do distante] (veja resenha desse livro aqui no blog).
O excerto seguinte, “El paradigma de la traducción”, é uma aula inaugural proferida em Paris em 1998, e o terceiro texto, intitulado “Un “pasaje”: traducir lo intraducible”, é inédito. Neles, Ricoeur trata em última instância da questão da possibilidade e da impossibilidade da tradução. Defende que há duas vias de acesso ao problema colocado pelo ato de traduzir: tomar o termo “tradução” em seu sentido estrito de transferência de uma mensagem verbal de uma língua a outra, ou tomá-lo em sentido amplo, como sinônimo de interpretação de todo conjunto significante dentro da mesma comunidade lingüística. O primeiro enfoque foi o escolhido por Berman; o segundo, por George Steiner em After Babel.
Ele aborda o debate sobre a diversidade das línguas, as diferenças e as semelhanças possíveis entre as mesmas, e a utopia da língua perfeita. Primeiro, diz ele, há a questão da diferença entre as línguas, em seus aspectos lexicais, fonéticos, sintáticos, etc. Além disso, as línguas são diferentes não apenas pelo fato de recortarem diferentemente o real, mas também na maneira de recompô-lo no discurso. As orações são pequenos discursos tirados de discursos maiores que são os textos. Esses, por sua vez, fazem parte de conjuntos culturais que expressam visões de mundo diferentes; e por aí vão se tornando cada vez mais complexas as relações.
*** Esta resenha foi originalmente publicada nos Cadernos de Tradução (UFSC). Para citá-la, acesse o original clicando AQUI.
quarta-feira, julho 23, 2008
Resenha: A tradução e a letra ou o albergue do longínquo agora em português

A expressão “albergue do longínquo”, conforme explicam em nota os tradutores desta edição para o português, é uma referência ao trovador medieval Jaufré Rudel, que escreveu sete canções nas quais canta o amor longínquo, ou seja, impossível e sem esperança. Assim, Berman manifesta já no título da obra a sua crença de que a tradução traz consigo a possibilidade de acolher aquele que está distante, ou seja, o Outro. Para Berman, a ida em direção à cultura estrangeira, com seus diferentes conhecimentos e subjetividades, está na gênese desta atividade e deveria nortear a sua ética. No excelente A prova do estrangeiro (Edusc: 2002), ele demonstrou, por meio do exemplo alemão da Bildung, o quanto um país pode enriquecer a cultura nacional ao ir ao encontro do estrangeiro para fazer uma releitura da própria cultura.
Na primeira parte de A tradução e a letra, Berman se dedica a fazer uma crítica das formas “tradicionais” de tradução, formas nas quais a mesma seria caracterizada pelo etnocentrismo do ponto de vista cultural e, do ponto de vista literário, pelas relações hipertextuais. Hipertextual, para Berman, remete a todo texto que se engendra por imitação, paródia, pastiche, adaptação, plágio ou toda espécie de transformação formal a partir de um texto já existente. Já o etnocentrismo estaria presente nas práticas que submetem o texto estrangeiro à própria cultura, normas e valores, considerando o que está situado fora dela como negativo ou bom apenas para ser anexado e adaptado. Um exemplo é a França dos séculos 17 e 18 que, com suas belas infiéis, difundiu que o mérito de uma tradução deveria ser o de aperfeiçoar e de embelezar o original, se apropriando do mesmo para lhe conferir um ar nacional. Berman alerta que essa concepção não pertence apenas ao passado (p. 28). “A amplitude das correções, ajustes, supressões, modificações de todo tipo, diminuíram, mas não desapareceram. São as formas ainda hoje dominantes de tradução, práticas que tradutores, críticos, escritores e autores normalmente consideram como normais e normativas da tradução”, diz ele.
Para o teórico, a essência da tradução etnocêntrica está fundada na primazia dada ao sentido. Berman afirma que “uma obra abre a experiência de um mundo manifestado em sua totalidade”, o que significa muito mais do que simplesmente transmitir uma mensagem. Portanto, em vez de traduzir priorizando o sentido, Berman propõe que se traduza literalmente. Justamente aí surge um dos desafios de A tradução e a letra: explicar o que devemos entender por “tradução literal”. Para Berman, não se trata de uma tradução palavra por palavra ou servil, mas de uma tradução que leve em conta a letra do texto. Por isso, na segunda parte do livro, Berman defende a idéia de que para termos acesso à verdade da tradução, sua verdade ética, é preciso que haja uma destruição das teorias reinantes e uma análise das tendências deformadoras da letra que operam em toda a tradução. Não se trata de uma teoria normativa que ensine como traduzir, mas um alerta para as forças que tendem a deformar a letra. Partindo desse princípio, o autor seleciona treze tendências deformadoras que costumam se manifestar no texto traduzido, como o ato de impor clareza quando o texto original é obscuro, alongar frases, deixar o texto "mais belo" que o original, entre outras.
Para conceituar a ética da tradução, Berman resgata o argumento do filósofo alemão Friedrich Schleiermacher, que em 1813, publicou o texto “Sobre os diferentes métodos de tradução” [“Ueber die verschiedenen Methoden des Uebersezens”]. Nesse texto, ele afirmava que o tradutor teria duas escolhas: ou levar o autor até o leitor ou fazer com que o leitor vá ao encontro do autor. Schleiermacher faz uma clara opção por “estrangeirizar” a tradução. A ética da tradução consiste em, segundo Berman, reconhecer e receber o Outro enquanto Outro, movido pelo desejo de conhecê-lo, não de dominá-lo (p. 68). Na prática, isso se daria por meio do respeito à letra do texto. Berman encerra o livro analisando trabalhos que considera exemplos de traduções literais, como Hölderlin e suas traduções de obras de Safo e de Sófocles, Chateaubriand e a tradução de Paraíso Perdido, de Milton, e a tradução da Eneida, de Virgílio, realizada por Klossowski. Quer concordemos ou não com as idéias de Berman neste instigante livro, não resta dúvida de que seu alerta contra a homogeneização da linguagem nas traduções deve ser levado em conta.
A TRADUÇÃO – Três professores da Pós-graduação em Estudos da Tradução (PGET), UFSC, foram os responsáveis por trazer ao português A tradução e a letra...: Marie-Hélène Torres, Mauri Furlan e Andréia Guerini. Sem dúvida, trata-se de uma vantagem para o leitor brasileiro, que tem acesso a um texto traduzido por pesquisadores especialistas em tradução que conhecem com profundidade a obra do autor traduzido. No entanto, precisamente por isso, seria válido encontrar na edição a informação, ainda que resumida, de quem são os tradutores e qual é a relação dos mesmos com a obra de Berman. Da mesma forma, seria interessante que constasse uma nota biográfica sobre Berman.
A orelha do livro é assinada pelo conceituado poeta e tradutor Paulo Henriques Britto, que introduz a obra sem deixar passar a oportunidade de dar uma alfinetada pelo fato de Berman considerar como “literal” a tradução de Chateaubriand que transforma em prosa os versos de Paraíso perdido. Ponto a destacar é a preocupação dos tradutores em seguir em sua própria prática algumas das orientações do teórico francês; por exemplo, a de respeitar na maior parte do tempo a pontuação do texto original, além de criar neologismos no texto traduzido todas as vezes em que o original também os apresentava. Esses e outros procedimentos adotados durante a tradução são explicados em uma Nota dos Tradutores que abre o livro.
.
quarta-feira, fevereiro 20, 2008
Encantos de Cortázar

Gosto muito de Julio Cortázar, principalmente de seus contos. Quando eu tinha uns 13 ou 14 anos, meu irmão levou Bestiário para casa. Fiquei impressionada com “Casa tomada”, que permanece até hoje como um dos meus contos favoritos. Também adoro “Cartas de mamá”. Uns anos atrás, traduzi “Continuidad de los parques” a pedido de um professor amigo da UFSC que usou a tradução em suas aulas. É um conto muito interessante, circular, no qual realidade e ficção se entrelaçam. Vale a pena ler. Abaixo, eis a minha tradução.
Continuidade dos bosques
Começara a ler o romance alguns dias antes. Abandonou-o por negócios urgentes, voltou a abri-lo quando regressava de trem à fazenda. Deixava-se envolver lentamente pela trama, pelo desenho das personagens. Nessa tarde, depois de escrever uma carta a seu procurador e discutir com o administrador uma questão de arrendamentos, voltou ao livro na tranqüilidade do estúdio que dava para o bosque dos carvalhos. Acomodado em sua poltrona favorita, de costas para a porta que o teria importunado como uma irritante possibilidade de intromissões, deixou que sua mão esquerda acariciasse vez e outra o veludo verde e começou a ler os últimos capítulos. Sua memória retinha sem esforços os nomes e as imagens dos protagonistas, a ilusão novelesca invadiu-o quase em seguida. Gozava do prazer quase perverso de desprender-se linha a linha do que o rodeava e sentir ao mesmo tempo que sua cabeça descansava comodamente no veludo do encosto alto, que os cigarros seguiam ao alcance da mão, que mais além dos janelões dançava o ar do entardecer sob os carvalhos. Palavra a palavra, absorvido pelo sórdido dilema dos heróis, deixando-se ir até as imagens que se ordenavam e adquiriam cor e movimento, foi testemunha do último encontro na cabana da montanha. Primeiro entrava a mulher, temerosa; agora chegava o amante, com o rosto machucado pela chicotada de uma rama. Admiravelmente ela estancava o sangue com seus beijos, mas ele rechaçava as carícias, não havia vindo para repetir as cerimônias de uma paixão secreta, protegida por um mundo de folhas secas e caminhos furtivos. O punhal amornava-se contra seu peito e, por baixo, pulsava a liberdade escondida. Um diálogo ofegante corria pelas páginas como um arroio de serpentes, e sentia que tudo estava decidido desde sempre. Até essas carícias que enredavam o corpo do amante como querendo retê-lo e dissuadi-lo, desenhavam abominavelmente a figura de outro corpo que era necessário destruir. Nada havia sido esquecido: álibis, acasos, possíveis erros. A partir dessa hora, cada instante tinha seu emprego minuciosamente atribuído. O reexame sem piedade interrompia-se apenas para que uma mão acariciasse uma face. Começava a anoitecer.
Já sem se olhar, atados rigidamente à tarefa que lhes esperava, separaram-se na porta da cabana. Ela devia seguir pela trilha que ia para o norte. Da trilha oposta, ele voltou-se um instante para vê-la correr com o cabelo solto. Correu também, esquivando-se de árvores e de cercas até distinguir na bruma malva do crepúsculo a alameda que levava à casa. Os cães não deviam latir, e não latiram. O administrador não estaria àquela hora, e não estava. Subiu os três degraus do alpendre e entrou. Do sangue galopando em seus ouvidos chegavam as palavras da mulher: primeiro uma sala azul, depois um corredor, uma escadaria atapetada. No alto, duas portas. Ninguém no primeiro quarto, ninguém no segundo. A porta da sala e, então, o punhal na mão, a luz dos janelões, o alto encosto de uma poltrona de veludo verde, a cabeça do homem na poltrona lendo um romance.
Julio Cortázar
Tradução de Marlova Aseff
quarta-feira, março 14, 2007
O tradutor das Mil e uma noites

Foi o avô libanês quem presenteou o menino Mamede com um exemplar de histórias infantis adaptadas do Livro das Mil e uma noites. Os anos se passaram e, hoje, o brasileiro Mamede Mustafa Jarouche é festejado como o primeiro tradutor a verter esse clássico diretamente dos manuscritos árabes para o português. Tarefa de fôlego que teve início em 2003 e ainda deve levar mais alguns anos. Até agora, dois tomos já foram publicados, e o terceiro deve chegar às livrarias no final deste ano. “Tenho quase meio milhão de caracteres traduzidos desse terceiro volume, quase a metade desta edição”, contabiliza o tradutor. Certamente, lá se vão também mais de mil e uma noites de trabalho, e pelo menos outros três volumes serão necessários para completar a publicação da obra.
O manuscrito mais antigo das Mil e uma noites remonta ao século 13. As principais fontes da tradução que está sendo realizada por Jarouche são três manuscritos árabes que estão na Biblioteca Nacional de Paris. Os primeiros dois volumes da tradução trouxeram as narrativas que a crítica filológica chama de ramo sírio. São textos copiados entre os séculos 14 e 18 na região árabe-asiática que hoje corresponde ao Líbano, à Síria e à Palestina. Esses escritos terminam na 282ª noite. As demais noites estão nos manuscritos do chamado ramo egípcio, sendo que o mais antigo data do século 17.
No Ocidente, a trajetória das Mil e uma noites tem início em 1704, quando o arabista francês Jean Antoine Galland, após uma temporada em Estambul, fez a primeira tradução do livro no Ocidente. Sua versão, segundo Borges atesta no ensaio “Os tradutores das Mil e uma noites”, incorporou histórias que o livro não tinha, como a de Aladim e a dos quarenta ladrões (aliás, é interessante notar que os árabes, exímios matemáticos, gostavam de usar cifras nos títulos de suas narrativas). O fato é que, para Borges, a versão de Galland é a pior escrita de todas, a mais “embusteira” e “fraca”. Paradoxalmente, foi a que teve os mais interessantes leitores. Borges lista Thomas de Quincey, Coleridge, Stendhal, Tennyson, Edgar Allan Poe e Newman. E Jarouche completa que seguramente Voltaire e Montesquieu também foram leitores do livro.
“A tradução das Mil e uma noites participou da formação de um imaginário europeu sobre o Oriente Médio e ajudou a fundar a ciência conhecida como Orientalismo”, diz Jarouche. Muitas vezes, as traduções também participaram da criação de um estereótipo do árabe. No entanto, ressalta o tradutor, é preciso lembrar que mesmo no mundo árabe As mil e uma noites é considerado como literatura fantástica.
Jarouche, que além de tradutor é professor do curso de árabe da Universidade de São Paulo (USP), acredita que o grande fascínio despertado por esse livro tem duas causas principais. Uma delas é a questão feminina, o fato de ser uma mulher quem domina a narrativa. A segunda está no próprio título: “Como disse Borges, é o título mais bonito que um livro pode ter”, lembra Jarouche. As histórias também revelam um dos traços fundamentais da maneira de ser do árabe, muito direta e objetiva. “Perpassa o livro a idéia de que as coisas somente ocorrem movidas pelo desejo humano”, diz Jarouche.
Parece que o fascínio do livro continua em alta. A recepção pelo público-leitor brasileiro é, de certa forma, surpreendente. Mais de 20 mil exemplares vendidos apenas dos dois primeiros volumes. Em reconhecimento ao trabalho árduo, Jarouche obteve três importantes prêmios: o Jabuti de Melhor Tradução em 2006, o de Melhor Tradução do Ano da Associação Paulista dos Críticos de Arte e o Prêmio Paulo Rónai de Tradução, os dois últimos recebidos em 2005. Antes, ele já havia traduzido dois outros textos clássicos da literatura árabe: As cento e uma noites e o Livro de Kalila e Dimna. Jarouche surpreende-se com as mensagens que tem recebido dos leitores. “As pessoas me agradecem por ter feito a tradução!”, conta ele, e modestamente completa dizendo que está apenas cumprindo seu papel como pesquisador da Universidade.
Para Jarouche, uma das maiores dificuldades na realização da tradução é o vocabulário muito antigo, os muitos termos em desuso. Outro problema, diz ele, é que por vezes, a construção do texto em árabe, quando traduzido ao português, resulta redundante. O tradutor conta que se preocupa em ler em voz alta o texto traduzido para testar sua sonoridade no português, evitando as cacofonias. Houve também o cuidado de transcrever o nome dos personagens de uma forma que se aproxime o maxímo possível da pronúncia do árabe. Por exemplo, o nome da condutora da narrativa, que costuma ser grafado como Xerazade, desta vez aparece como Shahrazad.
O leitor também pode esperar encontrar nessa tradução passagens mais fortes que foram amenizadas ou mesmo suprimidas de algumas edições realizadas ao longo da história. “Há trechos obscenos e muitas metáforas sexuais”, diz Jarouche. As histórias também são testemunhos de como a sociedade árabe dividia seu espaço doméstico e público nesses séculos que correspondem, no Ocidente, à Idade Média, mas que no mundo árabe, ao contrário, foram séculos de intenso prazer e celebração da vida. “Enquanto no Oriente eram escritos tratados eróticos que contemplavam o prazer masculino e feminino, o Ocidente vivia uma época de mortificação da carne”, diz Jarouche.
Obs: Texto publicado originalmente no DC Cultura de 10/3/2007.



