Acabo de ler o romance K: Relato de uma busca, de Bernardo
Kucinski. O livro havia sido lançado primeiramente em 2011 pela editora
Expressão Popular, relançado em 2014 pela Cosac Naify e, este ano, saiu pela
Companhia das Letras. Não é
longo, apenas 169 páginas. Li em dois dias. Achei muito oportuno lê-lo agora em
2016, pois em 2011 a história configurava uma denúncia sobre a ditadura militar no
Brasil. Estava no passado. Nos dias de hoje,
ecoa como uma ameaça de futuro
próximo, ou mesmo de presente, que se configura quase como um pesadelo para
aqueles que ainda prezam a nossa frágil democracia, nossos direitos e
liberdades.
Em tempo: o livro é baseado na história do desaparecimento da irmã do
autor no início da década de 1970. Começa com um aviso: “Caro leitor: tudo
neste livro é invenção, mas quase tudo aconteceu”. Agora irei fazer algumas rápidas anotações sobre a trama e como ela reverberou em mim.
Primeira nota: o pai que sai em
busca da filha desaparecida nos porões da ditadura chama-se K., tal qual em O processo, de Kafka, e também é
enredado por agentes de um Estado perverso e autoritário, mas sobretudo cínico.
Um Estado que se permite usar de subterfúgios para não seguir a lei. Qualquer semelhança não é mera coincidência.
Segunda nota: a trama mostra as
estratégias de guerra psicológica usada pela repressão para confundir,
desestabilizar, “matar no cansaço” aqueles que procuravam seus desaparecidos. O
livro denuncia nas páginas finais que quarenta anos mais tarde esse “sistema
repressivo” ainda continuava (continua) articulado. Medo. Também faz-nos pensar como certas organizações
podem ser seletivas quanto aos Direitos Humanos: por exemplo, se a sua filha desaparecer
por causa do sionismo, nós te ajudamos, caso contrário, nada feito. Mostra
também que o informante, o dedo-duro, não veste gabardine e chapéu de feltro:
pode ser o simpático dono da padaria que escuta as conversas no balcão, o moço
que faz a vitrine de lojas em diferentes bairros da cidade. Enfim, pode ser
qualquer um.
Terceira e última nota: um dos trechos que mais me fizeram pensar
sobre os dias que vivemos hoje no Brasil está no capítulo no qual os colegas de
universidade de Ana, a filha desaparecida e que era professora do curso de Química
da USP, votaram por sua demissão por abandono de função. Ninguém, absolutamente
ninguém, tem coragem de dizer em voz alta que ela não abandonou a função, mas
que foi sequestrada por órgãos do Estado. Altos cientistas do país presentes à reunião,
alguns dos quais judeus perseguidos pelos nazistas na II Guerra, não se manifestaram.
O narrador conta que anos depois a reitoria assumiria a injustiça dessa
demissão, mas os professores presentes à reunião nunca se desculparam. Entre trechos
da Ata, o narrador imagina o que passou pela cabeça de cada um naquele momento.
Cada um com as suas desculpas íntimas para não se posicionar diante da injustiça.
Entre as desculpas, preservar a instituição, não colocar tudo a perder por causa de uma
simples professora, ganhar um cargo por ser cúmplice da repressão, simpatizar
ou não com a desaparecida, pra quê arriscar a carreira em nome de alguém que
nem conheço bem, metida sei lá com quê?
E cada um concede-se a sua
desculpa íntima para permanecer calado.
Serviço:
K: relato de uma busca, de Bernardo Kucinski. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. 169 páginas.
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