quarta-feira, setembro 28, 2016

Um livro inquietante para se ler em 2016

Acabo de ler o romance K: Relato de uma busca, de Bernardo Kucinski. O livro havia sido lançado primeiramente em 2011 pela editora Expressão Popular, relançado em 2014 pela Cosac Naify e, este ano, saiu pela Companhia das Letras.  Não é longo, apenas 169 páginas. Li em dois dias. Achei muito oportuno lê-lo agora em 2016, pois em 2011 a história configurava uma denúncia sobre a ditadura militar no Brasil. Estava no passado. Nos dias de hoje,  ecoa como  uma ameaça de futuro próximo, ou mesmo de presente, que se configura quase como um pesadelo para aqueles que ainda prezam a nossa frágil democracia, nossos direitos e liberdades. 

Em tempo: o livro é baseado na história do desaparecimento da irmã do autor no início da década de 1970. Começa com um aviso: “Caro leitor: tudo neste livro é invenção, mas quase tudo aconteceu”. Agora irei fazer algumas rápidas anotações sobre a trama e como ela reverberou em mim.

Primeira nota: o pai que sai em busca da filha desaparecida nos porões da ditadura chama-se K., tal qual em O processo, de Kafka, e também é enredado por agentes de um Estado perverso e autoritário, mas sobretudo cínico. Um Estado que se permite usar de subterfúgios para não seguir a lei.  Qualquer semelhança não é mera coincidência.

Segunda nota: a trama mostra as estratégias de guerra psicológica usada pela repressão para confundir, desestabilizar, “matar no cansaço” aqueles que procuravam seus desaparecidos. O livro denuncia nas páginas finais que quarenta anos mais tarde esse “sistema repressivo” ainda continuava (continua) articulado. Medo. Também faz-nos pensar como certas organizações podem ser seletivas quanto aos Direitos Humanos: por exemplo, se a sua filha desaparecer por causa do sionismo, nós te ajudamos, caso contrário, nada feito. Mostra também que o informante, o dedo-duro, não veste gabardine e chapéu de feltro: pode ser o simpático dono da padaria que escuta as conversas no balcão, o moço que faz a vitrine de lojas em diferentes bairros da cidade. Enfim, pode ser qualquer um.

Terceira e última nota:  um dos trechos que mais me fizeram pensar sobre os dias que vivemos hoje no Brasil está no capítulo no qual os colegas de universidade de Ana, a filha desaparecida e que era professora do curso de Química da USP, votaram por sua demissão por abandono de função. Ninguém, absolutamente ninguém, tem coragem de dizer em voz alta que ela não abandonou a função, mas que foi sequestrada por órgãos do Estado. Altos cientistas do país presentes à reunião, alguns dos quais judeus perseguidos pelos nazistas na II Guerra, não se manifestaram. O narrador conta que anos depois a reitoria assumiria a injustiça dessa demissão, mas os professores presentes à reunião nunca se desculparam. Entre trechos da Ata, o narrador imagina o que passou pela cabeça de cada um naquele momento. Cada um com as suas desculpas íntimas para não se posicionar diante da injustiça. Entre as desculpas, preservar a instituição, não colocar tudo a perder por causa de uma simples professora, ganhar um cargo por ser cúmplice da repressão, simpatizar ou não com a desaparecida, pra quê arriscar a carreira em nome de alguém que nem conheço bem, metida sei lá com quê?


E cada um concede-se a sua desculpa íntima para permanecer calado.

Serviço:
K: relato de uma busca, de Bernardo Kucinski. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. 169 páginas.

terça-feira, junho 24, 2014

Felisberto Hernández: a vida de um concertista de província

 * Por Marlova Aseff

As freqüentes viagens do escritor uruguaio Felisberto Hernández (1902-1964) pelas cidadezinhas do interior do Uruguai e da Argentina formaram a matéria da experiência que esse pianista-escritor levaria para a maioria das suas narrativas. Impossível não lembrar Walter Benjamin, para quem havia dois tipos arquetípicos de narradores: o sedentário, representado pelo camponês, e o marinheiro-comerciante. Pois Felisberto Hernández é dessa segunda estirpe: um navegador que percorria o pampa uruguaio e argentino – cuja planície foi muitas vezes comparada à vastidão do mar – e aportava em lugarejos onde recolheu o substrato de sua original literatura.
Mais conhecido em seu tempo como pianista do que como escritor, o uruguaio era ao mesmo tempo galante (teve várias mulheres) e glutão (de tão gordo, quando morreu, seu caixão teve de ser retirado pela janela do prédio). Esteve fora do cânone literário de seu país durante quase toda sua vida. Conforme estudo realizado por Alejandro Gortázar na Universidad de La República (Uruguai)[1], sua literatura apareceu pela primeira vez em uma antologia do conto daquele país somente em 1962, dois anos antes de sua morte. Talvez a explicação para esse fato resida em dois fatores que não se excluem: por um lado, a originalidade de seu estilo retardou o reconhecimento de sua obra por parte da crítica. Por outro, seus estranhos relatos necessitam de um público leitor que esteja disposto a renunciar ao linear.
Na década de 70, escritores como Italo Calvino e Julio Cortázar escreveram prólogos elogiosos para traduções para o italiano (1974) e o francês (1975). Em 1977, um grupo de estudiosos do Centro de Investigaciones Latinoamericanas da Universidade de Poitiers publicou uma série de estudos dedicados à obra de Felisberto Hernández[2]. No entanto, as primeiras críticas foram divulgadas pela equipe do lendário semanário uruguaio Marcha. Nessa publicação, críticos como Ángel Rama, Emir Rodríguez Monegal, Mario Benedetti e José Pedro Díaz, entre outros, fizeram suas apreciações (nem todas positivas) sobre a produção literária de Felisberto.
Para Calvino, Hernández “não se parece com nenhum outro escritor”. Para Cortázar, a obra do uruguaio “não responde a influências perceptíveis”. Sua produção já foi considerada literatura imaginativa, fantástica, surrealista. Essa última denominação foi criticada por Cortázar, que acusava a crítica de, por não saber como enquadrar a obra, “tirar da cartola o grande coelho branco chamado surrealismo”.
Pablo Rocca, professor da Universidad de La República (Uruguai), chama a atenção para o rico contexto de tensões no qual se formou a literatura de Hernández, como: campo e cidade, vanguarda e criollismo, realismo e formas do fantástico, modernização e conservadorismo. A temática insólita dos contos, segundo Cortázar, alia o cotidiano ao excepcional a ponto de mostrar que podem ser a mesma coisa.  Além disso, em seus textos aparecem o registro coloquial (uma raridade na época) e um humor sutil e melancólico.
A obra de Felisberto Hernández divide-se naturalmente em três períodos com características diferentes. De 1925 a 1931, época em que inicia sua criação literária e lança pequenos livros sem expressão: Fulano de tal (1925), Libro sin tapas (1929), La cara de Ana (1930) e La envenenada (1931). A  partir de 1942, começa a segunda fase, quando publica relatos mais extensos nos quais privilegia a memória e a evocação. Pertencem a esse período Por los tiempos de Clemente Colling, El caballo perdido e Tierras de la memoria (publicado postumamente). O terceiro e último período é representado pelo conjunto de seus contos: Nadie encendía las lámparas (1947), Las hortensias (1949) e La Casa Inundada (1960).

Traduções brasileiras:
O cavalo perdido e outras histórias. São Paulo: Cosac Naify, 2006. Tradução de Davi Arrigucci Jr.
As hortensias/Las hortensias. São Paulo: Grua, 2012 (edição bilíngue).  Tradução de Pablo Cardellino Soto e Walter Carlos Costa.







[1] Ver artigo do autor na revista Fragmentos, nº 19, pp 31-45.
[2] Trata-se da obra Felisberto Hernández ante la crítica actual.

sexta-feira, abril 11, 2014



Otília tinha toda uma teoria sobre o que o bordado poderia ensinar às pessoas. Ou melhor dizendo, às mulheres, uma vez que os homens não costumavam bordar.  Por exemplo, ela  dizia que a  beleza de uma coisa era diretamente proporcional à falta de pressa com que havia sido feita. Isso valia igualmente para uma receita de bolo, uma refeição, para a amizade ou para o  amor. Também falava que era melhor consertar um erro logo que ele acontece, pois depois se tornava muito mais difícil voltar atrás, e raramente isso era feito sem deixar marcas no “bordado”. Havia também a questão da escolha das cores (o contraste certo poderia ressaltar todo o potencial de beleza de um determinado tom) e da tensão com que devíamos fazer os pontos (nem frouxo demais, nem apertado demais).
E os arremates? Os arremates, ela pensava, eram a prova de que era preciso também cuidar das coisas que não são visíveis, pois elas, embora não sejam evidentes, podem ser sentidas, estão presentes de alguma forma e atestam a integridade da “coisa” em questão. E chamava a atenção para nunca descuidarmos dos fiapos soltos: parecem inofensivos, mas podem acabar com a sua paz.

sábado, fevereiro 08, 2014

Frente fria


  Marlova Aseff

Um temporal se forma quando uma frente fria avança, do Sul em direção ao Norte, até se chocar com uma massa de ar quente. A esse violento encontro da natureza também chamamos de tempestade ou tormenta. São dois movimentos opostos, como dois desejos em combate.


Estavam em meados de abril e os dias continuavam quentes e abafados. Ao acordar, Teresa tinha sempre a esperança de ver nuvens no céu ou de, ao menos, sentir uma  leve brisa que pudesse anunciar chuva. Mas não. O tempo  passava e o céu amanhecia, dia após dia, de um azul pleno, iluminando a  vastidão da planície. O sol,  onipresença tórrida, sugava as energias de todos os seres. Homens, gado, cachorros, gatos e até os pássaros procuravam uma sombra para escapar do mormaço. O calor obrigava Teresa a cumprir as lides da primeira hora da manhã com certa pressa. Levantava antes das cinco, e o sol não tardava em arder mais e mais forte, tornando fatigante o trabalho caseiro. Isso a incomodava de maneira particular, pois alterava a rotina lenta e metódica com que estava acostumada a levar o tempo, num ritual repetitivo, mas que a ajudava a preencher os dias. Ela observava o calor impelindo o pasto a se retorcer, travando uma luta inútil  para não ressecar por inteiro; sentia a sola dos pés queimarem a ponto de ter de  procurar uma laje que ainda se mantivesse fria para plantá-los ali por alguns momentos.
Mais uma semana de sol e pequenas trombadas de chuva que de nada serviam e o poço, que havia resistido por todo o verão, começava a secar. O homem da casa recomendou que não fossem mais lavadas as roupas, nem as lajes. Era preciso poupar água.   Com menos serviço, ela  agora tinha tempo para sentar-se à sombra dos cinamomos e  jogar pensamentos fora enquanto esvaziava as glândulas de tanto suar. Atirada sob as árvores, pensava em como o verão lhe era especialmente cruel. Havia lhe tirado os últimos prazeres que  tinha, como o gosto pelo mate amargo da manhã. Sorver o líquido quente a fazia arder ainda mais.
Depois de limpar a casa,  o final da manhã era o próprio inferno. Ficava junto ao fogão para preparar o almoço dos homens e os vapores ferventes das panelas a envolviam até a náusea. A hora da sesta tampouco trazia alívio, pois o sono era pesado e a levava a pesadelos diurnos que eram sempre mais terríveis do que os da noite. Mesmo assim, era preciso escapar do escaldante sol da uma hora da tarde abrigando-se na penumbra dos quartos da casa, sentir o cheiro das coisas velhas, olhar entediadamente para o teto de madeira e as suas  teias de aranha ou para os móveis quietos da casa.  Nessas horas arrastadas, ouvia o galo cantar longe dali, a quietude revelava o rangido das madeiras do assoalho, a respiração dos ocupantes dos outros cômodos. Mantinha-se nesse exercício de escutar até o chão ressonar com o trote manso dos peões em seus cavalos, rumo ao campo para a jornada da tarde. Nunca sabia se tinha de fato dormido ou se ficara todo o tempo a decifrar os sons da casa. Uma pequena redenção era a chegada da noite. O céu cobria-se de alaranjados e rosas, os animais recolhiam-se e a noite avançava lentamente. Por alguns minutos, o esperado alívio. Da janela do banheiro, lavando-se com a água fresca do poço, via a lua, imensa, nascendo vermelha. Mesmo bela, era um sinal de que o calor permaneceria.  Neste momento, o desânimo a devorava. Era o fim de mais um dia.
Em uma dessas noites, com as coxas grudadas de suor e a nuca encharcada, entrelaçou ideias desordenadas e repetitivas sobre quando a estação ingrata haveria de acabar. Doeu-lhe profundamente não poder contar com o refúgio imaginário dos dias frios. Ficar sob as cobertas pesadas enquanto não era hora de levantar, consolada pelo cinza chumbo do  inverno, imóvel, como num canto de si mesma. Sentia-se mais viva nos dias de vento forte, frio e revoltoso.  Pensou em como, todos os anos, ansiava pela chegada do inverno, quando o rádio alertava a aproximação das  frentes frias, que inevitavelmente formavam violentas tempestades.  Nunca desejara tanto ver uma tormenta se armando no horizonte.
De madrugada, Teresa acordou ouvindo a janela do quarto que batia forte. Nuvens de poeira invadiram a peça, banhando-a de translúcidas partículas que se colaram ao corpo ainda úmido de suor. Saiu correndo e, afoita, olhou para o céu e viu nuvens avançando ágeis sobre a sua cabeça. Enfim a tormenta viria. O vento sacudia os eucaliptos e carregava folhas soltas em pequenos redemoinhos que a envolviam enquanto girava, só e desvairada, no pátio da casa. Sentiu prazer em cada trovoada, em cada relâmpago que atravessava o breu e esperou avidamente pelas primeiras gotas de chuva.
 Mas as gotas não caíram. O mesmo vento que trazia a chuva, carregou-a para longe. Teresa voltou a seu quarto. A madrugada corria solta e nenhum sopro de brisa adentrava a janela.

domingo, outubro 13, 2013

A plenitude do instante


Pinceladas rápidas. Pinceladas rápidas e múltiplas, nervosas e rítmicas, ondulantes, fragmentadas, descontraídas. Pinceladas rápidas e múltiplas, nervosas e rítmicas, ondulantes, fragmentadas, descontínuas.

O quadro O Grito de Munch berrava tons entre vermelho roxo laranja e não se ouvia o grito mas sim as cores suplicantes e foi aí que folheando um livro de física me revoltou o fato de as cores serem uma ilusão e isto é uma advertência de que tudo o mais pode ser ilusório quer dizer não existem de fato as cores e uma mesa vermelha não é uma mesa vermelha é a ilusão do vermelho presente e na verdade a cor é a capacidade dos objetos sugarem a luz como esponjas que umedecem o azul dos quadros de Picasso.

– Quer dizer que nós nunca vimos mesmo o azul? – ela pergunta, olhando nos olhos dele, que eram profundamente azuis.






* Miniconto de Marlova Aseff

sábado, julho 20, 2013

Miniconto doméstico

A lâmina da faca penetra docemente a polpa do tomate. Parece carne... "Minhas sopas estão cada vez melhores", penso, satisfeita. E não apenas cozinho, mas também costuro. Minhas especialidades são as galinhas e os elefantes. Sim, galinhas e elefantes, de feltro, bichinhos coloridos.
Não existem mais mulheres como eu, que se dignam a chorar cortando uma cebola! Estraçalho os vegetais com a faca afiada, rápida e fatal como uma metralhadora. Também gosto do liquidificador e do aspirador de pó, ou de  qualquer outro eletrodoméstico barulhento que possa tirar a sua paz. É como gritar, mas sem precisar abrir a boca.

Reciclando textos (1)


“O homem que não é capaz de
enfrentar o seu passado, não tem passado;
ou melhor, nunca sai dele,
vive eternamente dentro dele.”
Schelling



Barcelona (2005) - Andando pelas ruelas da Cidade Velha, percebo que o passado vive no presente. A atmosfera deste espaço real me leva a pensar em uma arqueologia de mim mesma (quantas cidades soterradas, quantas camadas por escavar?) Desvendar o passado para encontrar a liberdade de seguir adiante e dizer "Meu tempo é hoje", como cantou Paulinho da Viola.


quinta-feira, julho 05, 2012


Jules Supervielle (Parte I)


1. Por que traduzir Jules Supervielle
Em Influências e impasses, John Gledson resgata a importância do poeta franco-uruguaio Jules Supervielle na obra do poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade. Mas quem é, afinal, esse poeta pouco conhecido no Brasil e que, conforme sustenta Gledson, teve influência tão “fascinante” sobre a poesia de Drummond?  Supervielle (1884-1960) foi narrador, dramaturgo e, acima de tudo, autor de uma poesia de estilo muito pessoal. Nasceu em Montevidéu, em uma família francesa ligada ao ramo financeiro. Com oito meses de idade, ficou órfão. Criado pelos tios, aos 10 anos foi enviado à França para estudar. Passou a vida entre a Europa e a América do Sul e, juntamente com Jules Laforgue e Isidore Ducasse, forma a conhecida “trinca dos poetas franco-uruguaios”. No entanto, Supervielle tenha sido o único desses três a evocar em sua obra a vida no continente americano.
Para Gledson, Drummond sentiu-se atraído por Supervielle devido “à sua gaucherie partilhada” (Gledson, 2003, p. 97). Ou seja, ambos sofreriam de certa “inadequação social” por estarem “em uma posição intermediária entre o mundo da imaginação e o subconsciente, por um lado, e o entendimento do público, por outro” (Ibidem, p. 101). Sobre a preocupação de que sua poesia fosse  compreendida por todos, Supervielle deixou o seguinte depoimento:
Pour moi ce n’est qu’à force de simplicité et de transparence que je parviens à aborder mes secrets essentiels et à décanter ma poésie profonde. Tendre à ce que le surnaturel devienne naturel et coule de source (ou en ait l‘air). Faire en sorte que l’ineffable nous devienne familier tout en gardant ses racines fabuleuses. […] Je n’ai guère connu la peur de la banalité qui hante la plupart des écrivains mais bien plutôt celle de l’incompréhension et de la singularité. N’écrivant pas pour des spécialistes du mystère j’ai toujours souffert quand une personne sensible ne comprenait pas un de mes poèmes (Supervielle 1951, pp. 60-61).*
Em seu estudo, Gledson resgata um tributo publicado por Drummond por ocasião da morte do poeta franco-uruguaio, no qual Drummond revela profunda devoção por Supervielle:

Não conheci pessoalmente Jules Supervielle, nunca recebi dele uma linha. Entretanto, sinto sua morte como a de um amigo chegado. A explicação é simples, amo sua poesia há mais de trinta anos, e relações desta natureza criam uma espécie de intimidade, que não depende de conhecimento individual. [....] Sua poesia tinha algo de muito especial mas indefinível à primeira vista ou à luz das idéias estéticas em voga. Era canção, melodiosa mas discreta, de um homem que aprofundava sua condição de homem, e tentava mergulhar na essência da natureza, surdamente, suavemente, como quem vai de leve e devagar por uma estrada cada vez mais estreita, mais escura ­– estrada que tanto pode conduzir a uma floresta, como a um reino submarino, a uma paisagem pré-histórica, ou, quem sabe, a um universo gasoso (Drummond apud Gledson 2003:93).

 Tal relação entre Supervielle e Drummond faz com que a poesia de Supervielle revista-se de um novo significado tanto para a crítica como para o público brasileiro. No entanto, sua produção poética não chegou ao Brasil em traduções.[1] Pela antologia Oublieuse mémoire, publicada em 1949, Supervielle recebeu o Prix des Critiques e, em 1955, foi contemplado com o prêmio da Academia Francesa pelo conjunto da obra. Le corps tragique, espécie de meditação sobre a morte, publicada em 1959, foi seu último trabalho. Supervielle morreu em Paris em 1960, aos 76 anos.
Em seus primeiros poemas, o franco-uruguaio adotou formas tradicionais, passeando por influências parnasianas, simbolistas e também do modernista Rubén Darío (como em Brumes du passé, de 1900, e Comme des voiliers, de 1910). A proximidade a Jules Laforgue o ensinou a cultivar o humor, o que resultou na antologia Poèmes de l'humour triste, de 1919. Mas é somente a partir de Débarcadères (1922) que ele começa a se libertar das antigas influências, escrevendo a primeira de suas antologias em verso livre. Nela, se percebe o gosto pelas viagens que costumava fazer em companhia de Valery Larbaud (1881-1957), francês que popularizou os diários de viagem. Nessa antologia há, inclusive, um poema intitulado “L'escale brésilienne” [“A escala brasileira”]. O poeta esteve no Brasil diversas vezes. Em 1930, visitou cidades mineiras numa viagem que ficou registrada no relato autobiográfico Boire à la source. Depois de escrever um romance fantástico (L'homme de la pampa, 1923), Supervielle principia a exploração de aspectos mais profundos da sua personalidade em Gravitations (1925), Le forçat innocent (1930), Les amis inconnus (1934), La fable du monde  (1938). Publicou também narrativas, como Premiers pas de l’univers e L'enfant de la haute mer. Para o teatro, escreveu peças como La belle au bois e  Le voleur d'enfants. Amigo de Rainer Maria Rilke, com quem se correspondia regularmente, de Henri Michaux e de Jean Paulhan, incentivador da obra do uruguaio Felisberto Hernández, freqüentador do atelier de Tarsila do Amaral durante as temporadas da pintora em Paris, Supervielle era uma figura intrigante e que se manteve independente dos movimentos literários do início do século passado, principalmente do surrealismo, muito difundido após o manifesto de André Breton de 1924. Zum Felde ( apud Brando, 2001, p, 267), afirma que “dentro de um sóbrio equilíbrio convergem em sua poesia a imagem criacionista do surrealismo, a emotividade lírica e a nudez construtiva da forma, desprovida de todo luxo decorativo”.  Alguns temas recorrentes em sua poesia são os fantasmas do inconsciente, a presença escondida de Deus, a angústia perante a morte, jogos sutis com a linguagem, além dos lapsos da memória. Mas deixemos que o próprio poeta fale do que podemos encontrar em seu poema:

Allons, mettez-vous là au milieu de mon poème […]
Vous y trouverez un air, un ciel plus cléments que l’autre,
Dans un grand imprévu d’arbres ignorés par les saisons,
Une attentive floraison comme aux premiers jours du monde.[2]






[1] A única tradução para o português brasileiro no Index Translationum database da Unesco é  O boi e o jumento do presépio [Le boeuf et l'ane de la creche], por Abgar Renault (Belo Horizonte: Mazza, 1995).  
[2] Supervielle, Jules. La fable du monde, p. 108.
Vamos, entre no interior do meu poema [...]
Você encontrará um ar, um céu, mais clementes do que o outro,
Num grande imprevisto de árvores ignoradas pelas estações,
Uma atenta floração como nos primeiros dias do mundo.

* Para mim, é somente pela simplicidade e pela transparência que consigo abordar os meus segredos essenciais e decantar a minha poesia profunda. Tendo a que o sobrenatural se torne natural e transpareça (ou tenha ares de transparência). Faço de modo que o inefável se torne familiar, ao mesmo tempo que guarda as suas raízes fabulosas.[...] Não conheci o medo da banalidade que assombra a maior parte dos escritores, antes, conheci o medo da incompreensão e da singularidade. Como não escrevo para os especialistas em mistério, sempre sofri quando uma pessoa sensível não compreendia um dos meus poemas. (Tradução minha)

segunda-feira, abril 02, 2012

Abril é o mais cruel

Abril é o mais cruel dos meses, germina
Lilases da terra morta, mistura
Memórias e desejo, aviva
Agônicas raízes com a chuva da primavera

Eliot:versos inciais de A terra desolada, em tradução de Ivan Junqueira

quinta-feira, maio 06, 2010

Lembrando Mindlin


Percebi, dia desses, que o nosso querido José Mindlin, maior bibliófilo brasileiro, faleceu em fevereiro, e eu nem me toquei de lhe fazer uma homenagem. Conheci Mindlin em 2004, quando ele esteve aqui em Floripa para lançar uma caixa que continha um livro dele e outro da sua bibliotecária Cristina Antunes.
Muito simpático, vivaz, e sem afetação nenhuma por ser o grande colecionador de livros raros do Brasil e também um rico industrial, Mindlin foi muito, muito amável. Tiramos essa a foto aí do lado...Eu havia escrito sobre o lançamento no Cultura, do Diário Catarinense, e ele leu o texto no avião e escreveu assim no autógrafo que peguei naquela noite: "Para Marlova, que me deixou orgulhoso com o seu artigo, um abraço do José Mindlin. 24/08/2004. Imaginem, orgulhosa estou eu de ter conhecido essa pessoa que tanto fez pelo livro e pela nossa cultura.

O texto "Memórias de uma incrível biblioteca", que publiquei no DC Cultura, está aqui no blog. É só clicar no marcador "Livros", à direita, e rolar a página.

segunda-feira, novembro 02, 2009

Resenha: Borges y la traducción. La irreverencia de la periferia

En Borges y la traducción, Sergio Waisman examina el papel de la traducción en la obra del más célebre escritor argentino y también hace el camino opuesto al estudiar la importancia del mismo para la teoría de la traducción. Waisman, que es profesor de literatura latinoamericana en la George Washington University, empieza recordando que Borges fue toda su vida un traductor activo y que en sus textos “traducir y escribir se vuelven prácticas casi inseparables de la creación, de indagación hermenéutica y de reflexión estética y ética”. Waisman es traductor de autores latinoamericanos como Ricardo Piglia e Nataniel Aguirre, y su trabajo de traducción de Nombre falso y La ciudad ausente, de Piglia, ha sido lo punto de partida de las reflexiones de la presente obra.
En el primer capítulo, “Argentina y la traducción: líneas de un contexto cultural”, se discute el entorno en lo cuál Borges desarrolla sus teorías acerca de la traducción. Entre otras cosas, examina la naturaleza políglota de la literatura argentina en las décadas de 1920 e 1930, época en que Borges empieza a producir sus teorías acerca de la traducción. Waisman subraya que ese es un tiempo en lo cual la literatura argentina combina tendencias internacionales (de cuño cosmopolita) y locales (de vertiente criolla). “Desde el comienzo, pues, la traducción se vincula con la independencia cultural y la fundación de una literatura nacional; por consiguiente, con temas de identidad y representación”, concluye (p.23). Para Waisman, el papel de la traducción varía de una cultura a otra, así que la traducción, como cualquier otro modo de escritura, no es lo mismo en los márgenes que en el centro. Por eso, propone un examen de la literatura argentina por la lente de la teoría de la traducción para comprender qué significa traducir para un escritor argentino.
En el segundo capítulo, “La traducción según Borges: el desarrollo de una teoría”, el autor parte de la premisa de que aún “no se ha estudiado suficientemente la importancia que la traducción tuvo para Borges en sus implicaciones críticas y teóricas más amplias”. Para Waisman, en parte, eso es consecuencia de lo difícil que resulta interpretar y analizar las ideas de Borges y a la vez incorporarlas a la teoría. Pues Borges desplaza el acento de la tradicional búsqueda de la fidelidad en traducción y sugiere que no hay textos definitivos. De este modo, “lanza un reto irreverente al sugerir una teoría de la traducción mala, una estética del robo y la infidelidad”, dice Waisman (p.48). Al analizar el carácter de las evaluaciones que Borges hace de las traducciones de Las 1001 noches, el autor concluye que, para Borges, la deformación es inevitable y no siempre es mala.
En “La escritura como traducción” Waisman profundiza la idea de que escribir y traducir son actos sinónimos de creación. Además, con Borges, las teorías acerca de la traducción adentran al mundo de la ficción. Waisman estudia el proceso creativo de "Historia universal de la infamia", relato en lo cuál Borges se complace de practicar una "mala traducción", y analiza otros textos hasta llegar a "Pierre Menard, autor del Quijote", "el texto más importante de Borges sobre el tópico traducción", según Waisman.
“La estética de la irreverencia: mal traducir desde las márgenes” trata de cómo las teorías de Borges aumentaron el poder de la traducción periférica para crear textos nuevos. En el capítulo cinco, “Borges lee a Joyce: un encuentro en los límites de la traducción”, Waisman hace el rescate del diálogo que Borges mantuvo con la obra de Joyce en reseñas, traducciones y artículos de 1925 hasta 1982. Analiza en detalles cómo Borges pone en práctica sus teorías en la traducción de una página del Ulises que hizo para la revista Proa en 1925 y además de eso, rastrea otros puntos de encuentro entre los dos escritores.
En suma, Borges y la traducción es un libro que trae interesantes aportes para quienes se interesan por traducción en general, por la obra de Borges o por ambos temas. Y, principalmente, investiga y aclara la astuta manera como Borges ha utilizado la traducción para reposicionarse frente a las tradiciones centrales en cuanto escritor de las orillas.

Waisman, Sergio. Borges y la traducción. La irreverencia de la periferia. Traducción de Marcelo Cohen. Buenos Aires: Adriana Hidalgo, 2005, 318 pp.